Enquanto caminhava, chutando levemente a água do mar que lambia suas pernas, pensava como era bom sentir a brisa da liberdade beijando seu rosto, assanhando seus cabelos. Havia escapado - com muito esforço, deveras - daquele enlace claustrofóbico que vivia anteriormente. Malditas pessoas monótonas, maldita rotina de merda. Sempre tivera vontade de conhecer as vias de fato. Agora – enfim! – seus passos tinham a pura autonomia que sempre sonhara.
Ela se regia. Fazia de todos os dias uma descoberta dela mesma. Plantava flores dentro de si. Amontoava experiências, conhecia novas sensações. Perdia-se no seu copo, e se encontrava mais tarde no abraço alheio. Por puro prazer, se dava ao luxo de fingir que toda aquela liberdade a sufocava, só para elevar seu ego vezenquando, mas ela queria mais daquela maluquice.
De fato, não tinha medo. Enchia os pulmões de ar e agora reconhecia o seu direito de voz, e dele fazia uso. FODAM-SE. Repetia para se sentir mais leve. Não havia nascido para agradar ninguém – em todo o sentindo amplo que a palavra ninguém pode ter. Era sim egoísta, mas não tinha vergonha de ser assim. Aliás, não tinha vergonha de admitir qualquer sentimento preso dentro de seu emaranhado de poesias internas. Reconhecia que não há domínio sobre o que se sente, e sendo assim, que deixemos que os sentimentos floresçam e falem por nós.
Sabia que não seria assim pra sempre, que as pessoas se perderiam, que as situações mudariam, e talvez até ela mesma, como é natural, mas fazia disso um motivo a mais para agarrar a vida com unhas e dentes. Sugava de tudo que a ela fosse oferecido. Tinha sede de viver, de uma forma tal que a ela sempre havia sido negada. E assim, o tictaquear do relógio não era em vão. A certeza de que o segundo passado havia sido da melhor forma desfrutado vinha em seguida, com o próximo.
Pensava todos os dias que não existia coisa melhor que viver. Não como os bastardos de meia no pé esperando a hora de mamãe-ir-pra-cama, mas da forma mais visceral possível. Sentir. Essa era essa a sua vocação. E sorte sua que tinha vindo ao mundo assim. Frequentemente seu beija-flor interno sugava o néctar de suas flores, a deixando mais doce. Tinha requintes de delicadeza que nenhuma outra pessoa poderia ter. Piscava os cílios de uma forma que o êxtase quase fazia flutuar quem a via. Possuía um sorriso de céu e olhos de mar. contraditoriamente notava-se que no fundo havia algo que era uma marca. Um passado, talvez um molejo de dor. Uma tristeza por se entender sozinha...
Ela fugia a qualquer descrição que alguém a pudesse impor. Por mais que a estudassem, estava sempre além de qualquer entendimento ou suposição. Ela era imprevisível, contraditória, intensa como um rio que deságua incessantemente no mar. De uma diferença absurda. Aliás, sua descrição era esta: diferente. Possuía a doce loucura dos que vivem, de fato.
Bebia a vida em goles grandes, sem gelo, no estilo cowboy, nua e crua. E Era isso que estava lhe faltando: um universo inteiro por explorar. Um mar de possibilidades tão suas. Havia encontrado após tanto navegar. Velejou por tantos portos que sua memória chegava a falhar, mas conseguiu ancorar. Escolhera aquele menos seguro, mais real. Tinha a convicção de que só assim poderia começar a busca pela sua felicidade. E agradeceu por não ter perdido a esperança quando seu barco estava furado e quase naufragou. Agradeceu por não ter parado de remar e ter tido forças para beirar a praia, avistar naquela terra ao longe, a tão sonhada esperança.
Já havia escurecido e, perdida em seus pensamentos, ela nem havia sequer notado. Olhando o horizonte viu ao leste uma ave passando sorrateiramente, patinando pelas águas, mergulhando e voando novamente. Foi invadida de súbito por uma inveja boa. Não havia motivos pra pensar. Pensamentos são para aqueles que se negam, que se privam. Ela ousava, ela sonhava. Ela vivia a mercê do agora, do momento-já. Jogou seu par de sapatos de lado, despiu-se de seu vestido e fez menção de entrar no mar. Deu meia volta, não porque havia desistido, mas porque queria mais. Nada de pouco quando o mundo era seu. Nada de conta-gotas. Apenas extremos, intensos. Afinal, o que não é feito com toda a intensidade da loucura do coração não merece entrar para a sua história. Sem pudor algum tirou sua calcinha e logo após seu sutiã, e os sacudiu na areia, deixando a mostra seus seios rosados. Abriu um sorriso de esgueira no canto da boca e foi em busca do que seu coração pedia. Sentiu-se flutuar, e nesse momento não era mais a mesma, não habitava seu corpo. Sua alma planava em outro cosmo, outro planeta, outra estrela: a do impossível.
E entrou no mar correndo, como quem procura por água no deserto, o coração em pura efervescência, e ao mergulhar, encontrou ali o que queria: o universo dos prazeres.
(Laís Angeiras)

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